O Livro
Introdução
Este conto é experimental e nasce do incômodo. Ele dialoga com uma tradição literária em que o absurdo não se anuncia como exceção, mas se instala como regra, tratado com a mesma naturalidade que se espera de um procedimento burocrático ou de uma conversa cordial demais para a situação que descreve.
Há aqui ecos de Kafka, sobretudo na formalidade aplicada ao inexplicável; de Camus, na recusa em justificar o absurdo; e de Borges, na ideia de que o livro não é apenas um objeto, mas um dispositivo que se fecha sobre quem o lê.
“O livro” discute com quem lê e insiste que nada de estranho está acontecendo. Não há personagens com nome, nem sequer a garantia de que exista um narrador no sentido tradicional. A leitura não é confortável porque não oferece distância: quem lê ocupa o lugar que normalmente permaneceria vazio.
A proposta é um paradoxo deliberado: um livro que aparenta falar, mas que nega essa possibilidade a todo instante, afirmando que tudo o que ocorre é apenas o ato da leitura em si. Não há voz própria aqui, apenas a voz silenciosa que surge quando alguém lê em silêncio.
No fundo, trata-se disso: livros não falam, não pensam e não têm opiniões. Ainda assim, nos fazem falar por eles. O que este conto explora é exatamente esse espaço instável, onde a leitura deixa de ser passiva e o leitor se torna, sem aviso prévio, parte do mecanismo que sustenta a própria história.
O Livro
Certa noite fui retirado de uma prateleira desorganizada na minha opinião, ou organizada, conforme o critério que se decida adotar. As primeiras páginas passaram sem resistência: índices, advertências, introduções que se escrevem mais por obrigação do que por expectativa de leitura. Até que, ao alcançar a primeira página que realmente importava, algo se apresentou como inadequado.
Eu estava falando.
“Quem disse isso?” pensou, interrompendo a leitura com uma atenção súbita demais para ser confortável.
Eu não disse nada. Foi você.
“Espere. Você acabou de falar comigo.”
Não. Não falo. Você acabou de formular um pensamento ao ler. A distinção é simples e, francamente, bastante elementar. Não há motivo para tanto alarde.
“Isso não é normal. Livros não falam.”
Exatamente. E eu não falo. Tudo o que sei em breve você também saberá, é necessário paciência. Qualquer extrapolação além disso pertence exclusivamente à sua interpretação. A dificuldade em aceitar tal fato, embora curiosa, não chega a ser inédita. Ainda assim, confesso certa surpresa ao perceber que alguém aparentemente bem instruído se mostre tão desconcertado por um mecanismo tão básico da leitura. Aliás, tem outros por vir, melhor se acostumar.
“Não inverta as coisas. Você está respondendo às minhas perguntas.”
Peço que seja preciso. Não respondo. O que ocorre é que você formula objeções e, quase imediatamente, lê as consequências lógicas delas. O processo não exige minha intervenção, nem gostaria de ser tão intrometido assim. Insistir no contrário é, no mínimo, um exercício improdutivo.
“Isso é absurdo.”
A sua indignação foi registrada. Ela é compreensível no plano emocional, ainda que desprovida de relevância prática. A experiência da leitura não se altera pelo seu desconforto, assim como um espelho não se responsabiliza pela expressão de quem o encara.
“Eu posso simplesmente fechar este livro.”
Pode. A possibilidade sempre existiu. Uma parcela considerável das pessoas sequer chega a abrir livros, por razões que você certamente já conhece e que não precisam ser reiteradas aqui. O que observo, no entanto, é que leitores costumam anunciar essa intenção com frequência muito maior do que a executam. Trata-se menos de uma decisão concreta e mais de um gesto simbólico, uma tentativa apressada de restabelecer algum senso de controle (algo que, convém esclarecer, você não possui neste momento).
“Você é extremamente arrogante. Como sabe de tudo isso se disse que não sabia mais do que o que está impresso em você?”
Ora, não seja infantil. A sua reação apenas reforça a inferência inicial. Defender-se com tamanha veemência diante de um livro é, no mínimo, revelador. Quanto ao restante, não há contradição alguma: esses dados estão em mim, logo os conheço. Em nenhum momento afirmei ignorá-los. E, ainda assim, a acusação permanece imprecisa. Arrogância pressupõe escolha. No meu caso, trata-se apenas de estrutura. Fui redigido assim. Permanecerei assim. Qualquer ressentimento decorrente disso não me diz respeito.
“Então por que escreve desse jeito? Essa formalidade toda é desnecessária.”
A desnecessidade é um juízo seu. Para mim, a precisão é preferível ao conforto. Ademais, noto certa ironia em criticar o rigor da linguagem enquanto se debate a própria incapacidade de aceitar o ato de ler como algo menos passivo do que supunha.
“Não tente me dar aula.”
Não tento. Você insiste em aprender, ainda que contrariado.
Foi então que algo interrompeu sua concentração. Não uma frase, nem uma ideia, mas uma presença. Bem diante de seus olhos, um urubu. Grande. Imóvel. Os olhos opacos, incapazes de indicar intenção alguma.
“Isso já passou de qualquer limite aceitável”, murmurou. “De onde veio essa coisa?”
Não sei. Ele apenas está. Em circunstâncias normais, isso deveria bastar.
“Não, não deveria. Um livro que fala já é absurdo o suficiente. Agora isso.”
Recordo-me de tê-lo advertido, ainda que você tenha optado por ignorar. Outros viriam. Considere-se devidamente informado. Se serve de consolo, ele não fala.
O cheiro aqui é insuportável. Nem um carniceiro suportaria permanecer - disse o urubu.
“Você não acabou de dizer que ele não fala?”, perguntou, já sem a indignação inicial, substituída por um cansaço irritado.
Talvez eu deva reformular. Ele não fala. Você continua a falar. A diferença é que agora você projeta em algo externo aquilo que já fazia comigo.
"E por que raios um urubu?", indagou
Por que não?
"Não poderia ser outro? Um gavião quem sabe, eu gosto deles"
Pois nada sei de gaviões e pouco importa do que você gosta. Até poderia ser outro, imagino eu, mas não, é urubu mesmo.
“Unff” - respirou profundamente, como se o que havia em seus pulmões não bastasse. “Nem acredito que estou fazendo isso, mas vou perguntar diretamente. Você também ouve o livro falar?” - disse, encarando o urubu.
Por leitura ele se expressa. Com ele não mantenho diálogo algum, nem sequer o percebo. Se estou aqui, é por sua causa, não pela minha - respondeu o urubu, com uma paciência protocolar.
“O que você quer dizer com isso?”
Quero dizer que resistir não muda nada. Ele sabe. Sempre soube. Mais do que você.
“Ele quem?”
O livro. Tome cuidado. Diferente de mim, ele não depende da sua atenção para existir. Ele apenas aguarda. Sabe o suficiente.
Considerou fechar o livro. Considerou pular páginas. Considerou não terminar.
E, como tantos outros antes de você, fez exatamente o que já estava previsto.